As tranças de Mithra

Essa mulher linda e sorridente, eu encontrei no final das sessões fotográficas dessa exposição. Me surpreendi com a beleza do seu trabalho: tranças africanas de vários tipos, enroscados de cabelos com precisão, paciência e orgulho. Ela me recebeu no ritmo calmo de quem cuida — trocando as tranças da filha mais nova, Nadine — enquanto sorria com os olhos. Havia algo de profundamente afetivo naquela cena: mãe, filha e tradição entrelaçadas.

Mithra Josyane Baepar Cabral dos Santos nasceu em Guiné-Bissau, na capital Bissau. Chegou ao Brasil em 2006 e morou primeiro em Maringá (PR), onde iniciou o curso de Economia, mas não se adaptou. Mudou-se então para Campina Grande, onde encontrou um novo rumo: cursou Administração de Empresas na Unesc, com o apoio de uma bolsa concedida pela fundação italiana Sansone (Escola Normal Superior). Formou-se em 2012 — uma conquista importante, mas que não apagava o fio condutor que acompanhava sua vida desde os nove anos de idade: as tranças.

Trançar, para Mithra, não é apenas uma habilidade manual. É um gesto cultural, cotidiano, herdado e vivido desde sempre. Quando chegou ao Brasil, levou consigo essa prática. Em Maringá, atendia pessoas em suas próprias casas. Em Campina Grande, no começo, o cenário era diferente: quase não havia demanda. Era uma ou outra pessoa, geralmente estudantes estrangeiras, que apareciam para manter a tradição viva.

Foi em 2016 que tudo mudou. Catherine, uma jovem angolana, ao ver as tranças impecáveis de Mithra, perguntou quem as fazia. Ao descobrir que era ela mesma, pediu para ser atendida. Mithra aceitou. Quando Catherine voltou para a universidade, virou vitrine viva do talento da amiga. As perguntas começaram, os primeiros pedidos surgiram — uma professora, outra estudante — e, com o incentivo de Catherine, nasceu o Instagram de Mithra, no final de 2018.

Na pandemia, em 2020, houve uma pausa forçada e também tempo para repensar caminhos. Em 2021, Mithra voltou com mais fôlego: personalizou o perfil, começou a divulgar de forma mais constante, com a ajuda de Catherine e de Juliana, outra parceira importante. A rede de clientes foi crescendo aos poucos, como quem vai trançando mecha por mecha, até formar um desenho firme.

Em 2022, após perder o último emprego CLT, Mithra tomou uma decisão ousada: abriu seu CNPJ e passou a se dedicar integralmente às tranças. O negócio começava a desabrochar. Foi então que a vida a surpreendeu de outra forma: o diagnóstico de câncer de mama, em agosto daquele mesmo ano, a obrigou a interromper as atividades. O trabalho parou, mas o sonho ficou guardado, à espera do momento certo de ser retomado.

Esse momento chegou em novembro de 2024, quando Mithra voltou a trançar. Com coragem, retomou o ofício com a mesma delicadeza que vi naquele primeiro encontro: mãos firmes, sorriso aberto e um desejo enorme de seguir adiante.

Seu plano é claro: tornar-se mais conhecida, abrir seu próprio espaço, um salão onde possa atender com conforto e, principalmente, oferecer oficinas e cursos, compartilhando conhecimento e fortalecendo essa tradição. Falta recurso, sim — mas sobra determinação.

Enquanto observava Mithra finalizando as tranças da filha, percebi que o que ela faz vai além da estética. É memória viva, é identidade, é resistência passada de geração em geração. Naquelas mãos, a cultura não apenas permanece — ela floresce como lindas e firmes tranças.