Bonecos de pano e as memórias afetivas de Anita Garyballdi
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Conheci Anita Garyballdi no início dos anos 2000, quando encontrava sua filha Yara, ou Yayá frequentemente. Foi só depois de alguns meses de convivência que descobri o seu dom: confeccionar bonecos de pano. Um dia, diante de uma encomenda pronta — um palhaço de pernas de pau, com costuras minuciosas, roupas coloridas e sapatos que pareciam sorrir — percebi que estava diante de uma artista.
Naquele tempo, meu filho Marley tinha apenas oito anos de idade. Encomendei logo um palhaço para ele! Assim nasceu Chico Fuxico, o boneco que ganhou nome, vida e até fama de fofoqueiro gaiato. Durante horas, Marley se distraía com o anda-anda do perna de pau, com o troca-troca de roupas e as histórias mais mirabolantes. Até hoje, Chico não se aposentou: agora é enfeite da casa do meu filho, atraindo olhares curiosos de todas as visitas.
Mas Anita já vinha de longe mirabolando sua arte. Nascida no sertão da Paraíba, numa cidadezinha chamada São Gonçalo — ela cresceu entre as casas amarelas do Dnocs, aprendendo desde cedo a transformar retalhos em mundos. As primas, as avós e a mãe costureira foram suas primeiras mestras. Brincavam de casinha, inventavam famílias inteiras, celebravam casamentos, batizados, até enterros de bonequinhos. O irmão fabricava caminhões de brinquedo, e assim, juntos, recriavam o cotidiano sertanejo em miniaturas.
Com o tempo, a vida levou a família a Campina Grande. As primas seguiram outros caminhos, algumas foram para São Paulo, mas Anita permaneceu fiel às bonecas. Costurava os brinquedos para dar de presente em aniversários e encontros, sem imaginar que, um dia, viveria disso. O destino mudou quando alguém, encantado com uma de suas criações, pediu para comprar, mesmo sem ela saber quanto cobrar. Foi o começo de uma história que se espalhou de boca em boca, até tornar suas bonecas conhecidas e desejadas.
Há mais de vinte anos, Anita cria personagens únicos: bailarinas, pipoqueiros, bonecas nordestinas, além dos palhaços e até figuras inspiradas em filmes como Adeus, Minha Concubina, do diretor Chen Kaige, e Charles Chaplin. Suas peças viajam de Campina Grande para São Paulo, Rio de Janeiro, Fernando de Noronha e voltam cheias de histórias. Cada boneca carrega um traço de vida, como se guardasse um pedaço da memória da artista. E são articuláveis, uma técnica que ela se orgulha em dizer que criou.
E ela não parou nas agulhas. Também escreve cordéis, como o divertido “Cordel na Guerra”, em que Sadam Hussein invade o Iraque e a confusão só termina em Campina Grande, quando o jacaré do Açude Velho engole a bomba! Anita é criativa ao ponto de fundar uma “banda do pente”, chamada São Gonçalo Jazz Pente, tirando música de folhas de árvores presas nos pentes de bolso.
Seja no riso das bonecas ou na irreverência de seus cordéis, Anita mostra que brincar é também criar mundos, que atravessam o tempo, como Chico Fuxico, que nasceu brinquedo e se tornou memória afetiva — testemunha de que a arte popular, feita de pano, linha e imaginação, é capaz de costurar gerações inteiras.
- (83) 98104-1317
- @anitagaryballdi
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